Memórias de um cárcere
“A mente fraqueja e vem aquela lembrança. É como se a cabeça lá no fundo guardasse tudo que passei. É uma tortura, mesmo depois de tanto tempo”.
A reportagem traz relatos de pessoas
que conviveram as dores, as angústias e sofrimentos de estarem internadas num
manicômio. Seus tratamentos, a desesperança e o preconceito. E como elas tentam superar os traumas vividos dentro de uma instituição.
Uma depressão pós-parto fez com
que Maria Helena Jorge, de 75 anos, moradora de Paracambi, região metropolitana
do Rio, fosse internada por ordens médicas na Casa de Saúde Hospital Doutor
Eiras, há 42 anos. O ex-marido e os filhos foram convencidos de que a
internação seria o único tratamento possível à época. Sequer lembra-se do dia
em que fora levada à força, após ser encontrada vagando nua pela rua, e
retirada de uma ambulância já dentro do pátio do local que ainda é conhecido
como o inferno na terra, mesmo após 10 anos do seu fechamento definitivo. Passados
todos esses anos, ela ainda guarda lembranças do período em que esteve internada.
E que até hoje tem medo do estigma, pede para não publicar seu endereço e nem
foto, apenas a cidade (Paracambi).
“Fui internada com o diagnóstico
de sistema nervoso a pedido do médico do Doutor Eiras, após ser encontrada nua
na rua há 35 anos. Eu não me lembro de nada, fiquei uns quatro meses lá. A
coincidência é que o pavilhão em que fiquei tinha o nome de Maria Helena, o
mesmo que o meu. Sofri muito, peguei lepra, infecção urinária. Apanhava de
outros internos, dormia nua porque eles rasgavam meu avental. Além disso, os
enfermeiros não tinham paciência, mandavam para o isolamento quem batia e quem
apanhava. Davam Banhos de água gelada na gente. Eu procurava não reagir, dormi
muitas vezes com fome porque alguns internos comiam a minha comida. Ali não
tinha condições de recuperar ninguém. O tratamento lá era muito pesado. Se a
pessoa ficava agitada vinha com uma panela de remédio e socava na gente e
agente ia dormir. Não tinha carinho, a gente era tratado a supetão. Se minha
família não tivesse me tirado eu estaria morta.”, contou dona Maria Helena. Mas
afirma que mesmo saindo do manicômio, ele de algum modo continua dentro dela.
Talvez para não se esquecer do que considera como o inferno na terra.
A Casa de Saúde Dr. Eiras,
a 60 quilômetros do município do Rio, foi inaugurada em 1963, como
filial de uma Casa com o mesmo nome em Botafogo, já foi considerado o maior
hospital psiquiátrico da América Latina, comportando 2.550 internos. Esta
unidade era exclusivamente psiquiátrica; recebia pacientes com problemas
crônicos, os considerados sem possibilidades terapêuticas. Os que sobreviveram
a chamam até hoje de “O trem com destino final”. Destino final porque muitos permaneciam ali pelo resto de suas vidas; e trem em referência a estação férrea
que levava o nome do manicômio.
Há pouco mais de 35 anos teve
início um movimento para fechar os manicômios no Brasil, muito por conta dos
verdadeiros calabouços em que eram cometidas diversas violências contra os
pacientes em seu interior.
Dados do Ministério
da Saúde mostram que entre 2015 e 2021 houve redução de 51,3% no número de leitos em
hospitais psiquiátricos, caindo de pouco mais de 51 mil para 25 mil, de acordo
com a pasta, no período havia 166 hospitais psiquiátricos no país, distribuídos
em 113 municípios de 23 estados.
Aos nove anos, André Luiz
Silva, agora com 44, foi levado ao hospital da Amendoeiras, em Jacarepaguá com
sintoma de dor na perna, saiu 21 anos depois com o fechamento do manicômio.
Esse relato é da cuidadora Alba Valéria, que trabalha numa Residência
Terapêutica (RT) na Baixada Fluminense, para onde André foi transferido. Lá,
ele transfere suas angustias e dores através de desenhos expostos por toda RT.
“Ele relata que foi levado
pela família ao hospital devido uma dor nas pernas, também não há notícia do motivo ao qual seus familiares o abandonaram”, conta Alba, afirmando que nos
históricos médicos André nunca tivera qualquer transtorno mental.
Para o médico psiquiatra
Raldo Bonifácio, voltar ao convívio da sociedade após período de internação num
manicômio não é tarefa fácil. Para ele, de certa forma, os manicômios cederam
espaço para novas instâncias.
“A
população que vive hoje nos manicômios é a minoria. Hoje o foco deve ser nos
doentes que migraram para outras instâncias como hospitais gerais e
delegacias”, afirmou o médico e também professor.
Terror das crianças e
adolescentes, a extinta Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem),
apesar de não ser um manicômio clássico tratava seus internos com exacerbado
rigor e violência. Na antiga sede, em que agora funciona a sede da Fundação de
Apoio à Escola Técnica, em Quintino, Zona Norte do Rio, ainda moram numa
residência dentro do campus, sete ex-internos. Um deles é Bartolomeu Afonso da
Silva, 55 anos, internado desde 1974.
“Eu considerava a Funabem como um
manicômio, a violência contra as crianças era grande. Nos batiam com toalhas
molhadas por qualquer motivo. Nos colocam no calabouço, sem comida e sem sol.
Infelizmente minha família nunca veio me buscar, estou aqui até hoje”, conta
Bartolomeu, quando foi internado aos seis anos alegaram transtorno.
Para a psicóloga Thaina Silva,
pós-graduada em Terapia Cognitiva e Comportamental, O Estado falha
terrivelmente quando o assunto é atendimento de egressos do sistema manicomial,
ela percebe por exemplo o crescente número de pessoas com transtorno nas ruas e
cita Nilse da Silveira, precursora no Brasil no tratamento humanizado.
“Nosso Estado é falho quando assunto é assistência a essas pessoas. Elas são jogadas no meio da sociedade sem preocupação alguma das pessoas que deveriam zelar por elas, como dizia e agia doutora Nise, por detrás de um distúrbio existe uma pessoa que naquele momento, devido aos traumas vividos, teve o gatilho acionado. Por isso é importante um acompanhamento. Para Carla Bicca, especialista em dependência Química e diretora –adjunta da Associação Brasileira de Psiquiatria Regional Sul, fica patente que há um caminho longo a seguir.
“Com tratamento específico, adequando
as estruturas adequadas é muito possível a possibilidade de os pacientes serem
inseridos no convívio da sociedade.
Hoje existem 2.383 Caps país,
número muito pequeno se levar em conta o número de pessoas à espera de uma vaga
nessas residências. De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria esse
total de Caps atenderia apenas cinco por cento da demanda grave. Para a
psicóloga Fernanda Sena, com especialização em transtorno Mental, os Caps é mais
uma ferramenta na luta pela reforma psiquiátrica.
“Os Caps deveriam agir de
forma efetiva para minimizar a situação dessas pessoas indicando locais para
tratamentos específicos para cada paciente. Essas pessoas convivem com grandes
traumas, por isso um trabalho mais humanizado seria importante”, disse a
psicóloga.
Era uma casa muito engraçada, não
tinha grade e tinha alegria. A única representação de angústia para os oito
moradores de uma Residência Terapêutica no Centro do município de Queimados, na
Baixada Fluminense se resume numa réplica do quadro O Grito do norueguês Edvard
Munti, pendurado na parede. São pacientes de várias clínicas fechadas como os
manicômios Juliano Moreira, Itaboraí, Amendoeiras e Doutor Eiras durante os
últimos anos obedecendo à norma da Reforma Antimanicomial. Lá encontraram
respeito praticando coisas prosaicas como cozinhar e arrumar a casa, sempre
acompanhados por uma cuidadora para ministrar o remédio e em caso de receitas
mais complexas. Como Explica Alba Valéria, coordenadora da RT.
“Aqui a autonomia faz parte do tratamento, com remédios na hora certa, carinho e atenção nossos residentes são a prova de que pode dar certo”, explica Alba
Em
todo o sistema de atendimento a arte é um fator importante no tratamento, cuja inspiração vem de
Nise da Silveira. Prova dessa importância pode ser resumida na vida de outra
moradora: Iris Souza, de 55 anos. Embora tenha dificuldade na fala, consegue
gravar todas as datas de aniversários de
todos os moradores e cuidadores, além disso escreve poesias com relatos de momentos da vida dela.
Questionada se pretende lançar um livro, responde que prefere o caderno.
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